quarta-feira, outubro 16, 2013

Inquietude


Ó coração inquieto, deixa-me!
Se nem o eco me responde,
Porque hei-de esperar?

Ó vã esperança, larga-me!
Se nem o vento me ouve,
Porque hei-de sonhar?

Lancinante é o grito da incerteza.
Impaciente, o balanço da angústia.

Um gesto e parava o tempo.


segunda-feira, outubro 14, 2013

Beja - Hipólito Raposo


Uma das leituras deste Verão foi o "Oferenda" do avô Hipólito Raposo e um dos textos que mais gostei é sobre Beja, cidade que não conhecia.
Ora este fim-de-semana que passou calhou lá ir, a um evento da Real Associação do Baixo Alentejo.
Claro que levei o livro e reli o texto, que é de uma beleza ... Não resisto a pôr aqui um excerto, agora que conheço um pouco a cidade. 
Hoje é sobre a torre. Um outro dia, será a vez da parte que fala do cante alentejano.

“…
Ainda de longe, como se Beja fôra galeão a flutuar no oceano das idades e das planuras, a torre de menagem do Rei-Trovador serve há séculos de mastro grande para a Bandeira.
Na sua gávea de pedra, ficou a morar espiritualmente, solerte arauto de portugalidade, tão alto e de mirada tão longa que se mede com a imensidão do horizonte, para ser ouvido por todos os ossos sepultados na terra e pelas almas debruçadas dos céus de Portugal.
Torre de almenara e defesa, se por ela subimos, bem compreendemos a ameaça severa e solene do seu musguento prisma onde os antigos guardaram a herança do Lidador, para lição e exemplo de todos os lidadores da honra e glória da lusitana antiga liberdade.
…
Dos seus airosos balcões e do eirado que cobre a última das três abóbadas, vê-se desenrolar ou apenas se adivinha pelo desnível, a cinta das velhas muralhas de quarenta torres, lobrigando-se para além, abrumadas pela tremulina, as terras de Alvito, da Vidigueira, de Cuba, Serpa, Moura, Aljustrel, essas nobres vilas do alfoz de Beja, olvidadas e sonâmbulas. E quanto mais os olhos cursam em redor, para muito mais a distância interminàvelmente se amplia, como se nos cuidados de talhar e aprumar as reluzentes cantarias de São Brissos, no Rei e nos mestres de pedraria houvesse o impossível desígnio de alcançar e vencer o horizonte de toda a terra transtagana.
Alta, esbelta e nobre, com traços de lavor amoiriscado a dar graça à força, a torre do castelo de Beja, irmã das de Bragança e de Estremoz nos intentos, princesa de muitas outras na robustez e raínha de todas na vastidão dos domínios, é o orgulho heráldico da cidade e a mais importante das suas celebradas grandezas.”

Junho-944 – Beja Cantadora - Hipólito Raposo in Oferenda 

segunda-feira, setembro 30, 2013

Embarque

Vem comigo!
Espero-te no cais junto à nau.
Só nós dois.
De ventos e rosa nas mãos,
Sulcaremos o mar de nossos avós,
Atlântico abaixo,
Índico acima,
Pacífico adentro,
até nos perdermos,
ou nos acharmos.

30 de Setembro de 2013

A 4 mãos

segunda-feira, agosto 26, 2013

A Morte de um Homem por António Alçada Baptista


Venho do cemitério de Degracia onde ficou Hipólito Raposo. Apossado da evocação forte da sua figura forte regresso a Lisboa com pancadas de sabor “shakesperiano” na mente:
          Este era um Homem. Outros serão mais agradáveis ou mais astuciosos e por isso agradarão ao mundo. Mas este era um Homem…

E não é só a tristeza sentimental da muita amizade que tenho por um dos seus filhos. É sobretudo a cortante angústia da minha condição de homem, de homem do século XX, que uma a uma vê cair lições de honrosa verticalidade.
Muitos se impressionarão com o cessar da sua doutrinação. Outros lamentarão a paragem da sua pena, da sua escrita de mármore. Alguns condescenderão em chamar-lhe inteligente. Haverá aqueles que se entreolharão com alívio limpando nos olhos filisteus lágrimas de saudade falsa.
Tudo isso me parece pouco perante o que significa o ter passado mais um dos poucos Homens que restavam.
Põe-me o meu cepticismo político em extraordinário à vontade para falar deixando de parte uma paixão que não conheço.
O azul e o branco, o verde e o vermelho passam-me despercebidos perante qualquer que mostre a marca da nossa condição de filhos de Deus. E mais que as lições das fórmulas, dos principiozinhos ou dos sistemas, precisa a nossa geração das lições da Honra.
Queixam-se os povos da míngua dos “stocks”. Querem matérias-primas e chamam pelos cambiais. E amealham o ouro e os tesouros.
Não reparam como estão vazias a reservas da honra. E é aqui que eu agradeço a Hipólito Raposo a grande lição que nos deu.
Acabaram-se os signos do zodíaco. O 1º de Janeiro e por aí adiante, todos os dias tão iguais até ao 31 de Dezembro. Todos sob o signo das coisas, das fórmulas e das consciências fáceis. Signo do dinheiro fácil, da honra que deixou a rigidez da Honra para se adaptar mole e flácida às exigências da comida ou da ambição.
Há uma geração que veio ao mundo nesse signo – e essa é a minha…
Caímos rodeados de uma ideia de se ser alguém que outros atrás não conheciam. E assistimos à escalada avassaladora dos que se impõem e que se apontam ao mundo em exemplos de “novas” virtudes cívicas.
E a todos nós percorre a tentação…
E a consciência quer actualizar-se…
É quando a figura de Hipólito Raposo surge e nos segura.
É quando aparece o Homem para quem o dever era estrada dura de sacrifício. Conheceu o mundo e nele viveu e nunca se tentou…
Coberto pela bandeira do Integralismo Lusitano, a mesma que cobria António Sardinha, Hipólito Raposo seguiu da capela da sua quinta.
A rodeá-lo os seu amigos fiéis: Monsaraz, Pequito Rebelo, Luís Almeida Braga, Semião Pinto de Mesquita, Luís Cabral de Moncada, D. José Ferrão.
Depois Fernando Amado, a representar os poucos de uma geração que se perdeu.
A seguir meia dúzia de novos que quiseram receber mais uma lição.
Finalmente o povo, mulheres do campo, homens do campo, em alas abertas, com velas acesas e máscaras de tragédia…
Hipólito Raposo ficou no cemitério de Degracia, no cimo do outeiro, rodeado de eucaliptos e pinheirais.
Ao viandante deve dizer-se: Ele está ali.
E este era um Homem. Outros foram mais agradáveis ou mais astuciosos e por isso agradaram ao mundo. Mas este era um Homem.

Lisboa, 28-08-53

ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA in revista Cidade Nova

Nota: O avô José Hipólito Raposo morreu a 26/08/53, passando hoje 60 anos sobre a sua morte. No mesmo dia, em 1974, morria o seu filho mais velho, João. 

Recomeço?

Este blogue está a ficar uma seca. Só ligações para o que escrevo noutro blogue.

Não é nada como o imaginava.

Queria um blogue bonito.

Só fotografias lindíssimas, boa música e palavras, essencialmente de outros.

O Belo.

Tenho de ocupar esta casa ilegalmente. Não gosto quando não é belo.

domingo, maio 26, 2013

A espera

Demoras!
E na demora,
Ao sol de Ítaca
Vai Penélope tecendo,
Linha a linha,
Tua face no tear.

Ainda demoras!
E na demora,
Ao luar de Ítaca
Vai Penélope desfiando,
Linha a linha,
Tua face no tear.

Mas demoras!
E na demora,
Levou o tempo memórias.
Linha a linha
Penélope vai tecendo
Outra face no tear.
Mas eterno permanece o olhar.

Poema a quatro mãos
Maio de 2013

segunda-feira, abril 22, 2013

segunda-feira, abril 01, 2013

Círculo

Em círculos, às vezes em elipses, não saio dali.
Uma vez por outra caminho pelo raio, em passos milimétricos, e depois completo todo o perímetro a passo de corrida. Sempre 2πr. Sem falhas.
Saindo do raio, a área à disposição tem o horizonte πr^2 . Como se não soubesse. Uma combinação perfeita de π, raio e o número dois. Bonita, mas sufocante. Já chega. Quero sair.
Nunca disse, mas já fui espreitar lá fora. O mundo dos triângulos e o dos quadriláteros. Igualmente interessantes, não tão bonitos mas mais do mesmo, com outros perímetros e outras áreas.
Quero um mundo sem perímetros. De áreas infinitas.
Arranjo um mapa e fujo.



sexta-feira, março 29, 2013

Ecce Homo

Há-de ser sempre este. 



Do Museu Nacional de Arte Antiga: http://mnaa.imc-ip.pt/pt-PT/exposicao%20permanente/outras%20obras%20essenciais/ContentDetail.aspx?id=141

sexta-feira, março 22, 2013

Da Europa (3)

O dia 60 no Eternas Saudades do Futuro:

http://do-futuro.blogspot.pt/2013/03/carteira-de-senhora_22.html

sexta-feira, março 15, 2013

Das redes sociais

O dia 59 no Eternas Saudades do Futuro

http://do-futuro.blogspot.pt/2013/03/carteira-de-senhora_15.html

sexta-feira, março 01, 2013

Receita

O dia 57 no Eternas Saudades do Futuro

http://do-futuro.blogspot.pt/2013/03/carteira-de-senhora.html

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Voo


Se me negas as asas,
terei de voar sozinha.
Não tenho medo, toma nota.
Teria se não fosse capaz.
Espera o amanhecer e verás
num qualquer azul,
tão azul
que rebentará em estrelas,
o Voo. 
Picado primeiro,
depois manso no baloiço das brisas.
Não volto.

15/02/13



Do Papa

O dia 55 no Eternas Saudades do Futuro

http://do-futuro.blogspot.pt/2013/02/carteira-de-senhora_15.html

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Última carta à minha ex-operadora de telecomunicações


Ex-Cliente nº ....
V/Ref. ......
Lisboa, 29 de Janeiro de 2013

Exmo. Senhor xxxxxxx,

Tendo recebido a s/carta de 23/01/13 ontem dia 28, percebi que deseja ardentemente manter correspondência com a minha pessoa, e eu, entusiasmada com essa demonstração carinhosa, não posso deixar de responder. Sendo a terceira vez que escrevo, o namoro corre sérios riscos de se tornar noivado. Aliás fiquei muitíssimo bem impressionada pelo facto de não ter sido aplicado nessa carta um tal de “acordo” que considero abjecto.

Podia utilizar a já célebre expressão de uma grande senhora entretanto falecida, “Você sabe que eu sei que você sabe que eu sei”, mas nem é preciso.

Em s/poder tem o original (e no meu a cópia) do comprovativo do envio e recepção do fax enviado a 14/12/12, com a denúncia do contrato e todos os documentos necessários. Terminou pois o contrato a 31/12/12, e não a 31/01/13, como tão insistentemente quer fazer crer. Por isso, estou a considerar essa extensão uma liberalidade vossa, muito simpática, aliás.

Aguardo que façam a recolha do equipamento, porquanto há um cabo instalado pelos vossos serviços que não consigo retirar sem o cortar, e se há coisa que não pretendo é danificar seja o que for. Estragaria a nossa relação.

Também apreciei a última parte da carta, em que simpaticamente se põe à minha disposição todos os dias, 24 horas por dia, através de uns “contactos indicados abaixo”, mas fiquei desiludida porquanto parece que os tais contactos afinal não querem ser contactados e fugiram do papel.

Com os melhores cumprimentos,

Leonor Martins de Carvalho

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Um ano de crónicas

O dia 52 no Eterna Saudades do Futuro

http://do-futuro.blogspot.pt/2013/01/carteira-de-senhora_25.html

sexta-feira, janeiro 18, 2013

De Lisboa

O dia 51 no Eternas Saudades do Futuro

http://do-futuro.blogspot.pt/2013/01/carteira-de-senhora_18.html

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Da mudança de nomes

O dia 50 no Eternas Saudades de Futuro

http://do-futuro.blogspot.pt/2013/01/carteira-de-senhora_11.html

terça-feira, dezembro 25, 2012

O presente


Permite-me que te dê uma palavra,
Bem embrulhada em papel colorido
E com fita a preceito.
É o meu presente.
Desembrulha,
Mas com cuidado.
Pode-se partir.

Leonor Raposo 
25/12/12

domingo, dezembro 02, 2012

A carta

“…És as minhas asas. Vens voar?”
Pousou a caneta de tinta permanente que o acompanhava sempre, presente do seu querido avô pelo exame da quarta classe, e suspirou.
Levara uma noite sem horas, mil noites sem horas, mas finalmente chegara ao fim. Aquilo era A carta. Decidiu-se a reler e, aliviado, dobrou o papel, meteu-o no sobrescrito sóbrio, e fechou-o.
E agora? Comprava flores para acompanhar a sua alma? Quando finalmente tinha decidido imprimir em papel o que há anos estava impresso na sua pele, no seu corpo, na sua mente, não se conseguia decidir. Nunca tinha pensado que haveria outras coisas para decidir. O importante era a carta. Sempre fora.
A princípio achara ridículo escrever uma carta. Aliás nem pensara em escrever nada. Nem pensara. Os sentimentos tinham-se instalado sem licença, comodamente e sem barulho. Umas pequenas ânsias de vez em quando e era tudo. Quando dera por ele, já não conseguia desalojar o que sentia.
Depois, quis descartar. Era coisa impossível, ela rir-se-ia, não tinha futuro... Tinha de esquecer. Mas à parte as temporadas em que se embrenhava totalmente nos seus hobbies, não conseguia.
Qualquer coisa lhe prendia a voz e não conseguia dizer-lhe nada que não fosse trivial. Tentava uma aproximação mas desistia.
Foi então que decidiu escrever-lhe. À antiga. Uma declaração de amor, pronto. Mas as palavras não se alinhavam como queria, pareciam-lhe ora ocas ora demasiado fugidias, e por isso ia adiando o sentar-se à secretária.
Quando finalmente se sentou à frente do papel de carta, olhava e não escrevia. Como se escrever fosse matar o que sentia. Habituou-se àquelas horas sentado a olhar para um papel em branco.
Quando se resolveu a pegar na caneta, as palavras eram tão tontas que as rasurava com todas as forças. Cheio o papel de palavras tontas, acabava por desistir e transformava-as em bolas que rodeavam o cesto dos papéis. Basquetebol nunca fora o seu forte.
Recomeçava sempre. Já que começara…
Havia dias em que olhava pela janela, via a mudança das estações nas poucas árvores que tinha direito a ver, e duvidava… Largava a caneta, raivoso e questionava o que sentia. Vale a pena?
Atacara o branco como se o quisesse matar. De amor.
Agora estava ali. Conseguira escrever o que nunca conseguira dizer e gostava do que lia.
Decidiu-se por simples margaridas porque rosas encarnadas, não.
Mandou a florista entregar na morada certa e a custo deu-lhe o sobrescrito.
No dia seguinte, ela respondeu-lhe. 
No jornal, secção da necrologia.

Leonor Raposo

sexta-feira, novembro 30, 2012

Do 1º de Dezembro

O dia 44 no Eternas Saudades do Futuro

http://do-futuro.blogspot.pt/2012/11/carteira-de-senhora_30.html

sábado, novembro 24, 2012

Da saudade

O dia 43 no Eternas Saudades do Futuro

http://do-futuro.blogspot.pt/2012/11/carteira-de-senhora_23.html

segunda-feira, setembro 17, 2012

Reflexos


Sempre se sentira desamada. Mais mal-amada, talvez. Ou menos amada do que amava. Não sabia bem explicar.
Sofregamente procurava o olhar dos outros em busca da palavra maldita. Em todos ansiava ver esse amor que jurava nunca ter conhecido. Sofregamente queria tudo, mesmo o fingido. Sobretudo o fingido. E perdia-se.
Até o espelho entrava nesse jogo do desamor. Daí a colecção de espelhos. Procurava-os nas lojas, feiras e antiquários tão sofregamente como procurava os olhares. 
Quando chegava ao seu apartamento com uma nova compra, pendurava-a, sempre no mesmo prego, colocado de propósito no quarto para esse fim. Depois, afastava-se um pouco e fechava os olhos. Uns segundos infinitos de desassossego depois, reabria-os, expectante da surpresa de finalmente se encontrar. Amada. 
Não, aquele ainda não. Nunca era... Meio conformada mas angustiada, acabava por empilhá-los um a um no chão, encostados às paredes, a aguardar aquele dia. O da libertação.
Quando estava sozinha, doía, mas doía tanto… Uma dor difusa, uma desinquietação entre o pescoço e a pélvis, que apertava, apertava tanto... Enchia-se então de ben-u-rons, arranjava um saquinho de água quente, e sem saber porquê surgia-lhe a ideia estranha de que a dor da solidão era afinal quase gémea da que sentia quando estava a apaixonar-se.
Ontem encontrara um olhar. Não era fingido, pensou, talvez este… 
Olhava agora a cama com um sorriso doce. Fechou cuidadosamente a porta e saiu para comprar um espelho.

sábado, agosto 04, 2012

Grito


Se um dia contasse a sua história, começaria assim, num dia cinzento. Não que ele o seja, mas o destino o ditou ou, para dizer a verdade, porque me apeteceu.
Nesse dia, o tal cinzento, com pequenos rasgos prometendo o fatal azul da tarde, saíra cedo de casa sem hesitações em direcção ao campo. Gostava de o ver pela fresca, pontilhado pelo orvalho.
Parou na berma da estrada junto a uma seara de trigo. Já era a única na região. Chamara-lhe sua, dera-lhe um nome dos seus, porque era uma sobrevivente, como ele da guerra.
Saiu do carro e meteu-se seara adentro, sem rumo nem leme. As cigarras calavam-se, respeitando a medida dos seus passos. Até que foi ilha no meio daquele mar. Uns corvos levantaram voo grasnando, com medo da ilha. 
Ali parado e vieram a correr cores, cheiros, sons, todos seus, mas que por ali andavam à rédea solta. 
Enquanto caminhara até ao meio da seara, os pensamentos do mundo, o outro, não o largaram, reclamando aos gritos, sem cessar, direitos exclusivos de espaço, talvez intuindo o seu iminente despejo.
Enfim chegara o vazio. Recomeçaria, na mudez da seara. 
Devagar, começou por pronunciar em silêncio o seu nome. Mastigado. Deu-lhe depois voz, em sussurro, e continuou, em crescendo, até gritar bem alto o seu eu, esperando eco.
Retomado o silêncio, pronunciou o nome dela. Sem mastigar. Repetiu o processo até o grito lhe sair da garganta.
Foi então que voltaram os corvos.

segunda-feira, julho 16, 2012

A exposição na Junta

Há uns meses, não muitos, aconteceu uma exposição de fotografias em aldeia remota no Alentejo. Na Junta de Freguesia, uma casa minúscula à Estado Novo, barra de ocre a toda a volta e arco à entrada a dar sombra, nem mais nem menos do que uma das Juntas condenada à extinção sem remorsos pelo governo central. Isto depois de matarem a escola, a extensão do Centro de saúde... Um dia ainda tiram as festas de Agosto. Não sei o que virá a ser da casa e não percebo a poupança que fazem neste caso. Adiante.
À porta um letreiro mandava-nos ir buscar a chave ao café em frente. Assim fizemos, aproveitando para tomar o dito em converseta amena à volta daquelas mesas redondas que mal chegam para uma pessoa mas têm três cadeiras à volta, pelo que só metade de cada corpo chega à mesa, de perfil, uns novos hieróglifos à alentejana.
Lá levámos a chave, presa a qualquer coisa verde, talvez um crocodilo em miniatura, não sei, porque quando se trata de verde quero é esquecer.
Era uma exposição de retratos de alguns habitantes da aldeia, especialmente dos mais velhos, sózinhos e em casal, tiradas por um filho da terra com a máquina antiga do pai. Uma delícia os retratos, alguns mesmo muito bons.
Logo à entrada apareceu um dos retratados a quem pedimos que fizesse de guia e nos fosse identificando quem era quem. Não se fez rogado e começou:
- Este é o Zé, este o Manel, esta é a do Zé, esta é a do Manel...
- Ó homem, então as mulheres não têm nome?
Na verdade achara graça, mas ao mesmo tempo encanitara-me o olvido. Parou espantado, franzindo a testa. Acho que nunca tinha pensado nisso, aquilo saía-lhe naturalmente. Recomeçou e fez um esforço.
 - Este é o Zé mais a - uns segundos - Joaquina. Este aqui é o Manel mais a - uns segundos - a, a, Beatriz.
Não aguentou muito mais. As outras continuaram a ser "as dos" respectivos.
Nada a fazer. 

quarta-feira, junho 27, 2012




Hoje, os olhos de todos os portugueses estarão postos em vós, e vêm-nos à memória ecos da nossa história antiga: Atoleiros, Aljubarrota, primeiro de Dezembro de 1640…

Sois herdeiros dessa brava gente cuja vontade férrea moldou Portugal. Sois herdeiros desses avós egrégios que ireis cantar antes do jogo.

Como eles esperamos que sejam bravos, que não se deixem esmorecer, que lutem até ao fim, levantando bem alto o nome da nossa Pátria, da nossa gente.

Basta-nos isso e estaremos convosco em todas as horas. Nas vitórias e nas derrotas.


Vamos a eles!


domingo, junho 17, 2012

Dá-me a tua mão,
agora.
Ou um só dos teus dedos.
Basta um,
mas agora.
Leva-me.

sexta-feira, junho 01, 2012


Imagino-te a escreveres-me cartas de amor.
Cuidadosamente escolhes as palavras enquanto brincas com a caneta.
Tinta permanente.
Cuidadosamente dobras o papel em três,
desdobras para reler,
tornas a dobrar.
Cuidadosamente o papel dobrado em três
desliza para dentro do sobrescrito.
Cuidadosamente escreves-te como remetente.
Cuidadosamente escreves a morada da destinatária.
Descuidadamente não é a minha.

01/06/12



Do destino

O dia 18 no Eternas Saudades do Futuro

http://do-futuro.blogspot.pt/2012/06/carteira-de-senhora.html

terça-feira, abril 17, 2012

Dizei-me!


Dizei-me!
O que podemos fazer para deter esta insanidade que tomou de assalto Portugal há anos antes que nos destrua por completo?
Disseram-nos que é pelo voto que mandamos e mudamos.
Votei. Votámos. 
Não ouço lá a minha voz nem a de muitos.
Disseram-nos que temos liberdade de nos manifestar.
Estive em várias manifestações. Estivemos.
Não ligam, por maiores que sejam.
Disseram-nos que temos liberdade de expressão.
Usamo-la todos os dias e alguns (poucos) jornalistas e pensadores denunciam e alertam.
Não ouvem.
As liberdades são todas ilusórias. Têm-nas uns poucos. Há liberdade apenas para roubar, trair e mentir.
Então, o que é que neste sistema político nos permite sermos ouvidos?
Dizei-me!
O sistema é um mero jogo insidiosamente viciado, espartilhado, que invoca o perigo de envenenamento para que ninguém fora dos partidos possa alguma vez interferir na panela.
O que existe? 
Dizei-me!
Uma ILC? Que lei se proporia na ILC, uma armadilha que, a final, vai ser sujeita à aprovação dos mesmos?   Só com 10 milhões de assinaturas se poderia pensar que ela fosse tida em conta... 
Como foi possível não darmos por isso e não resistirmos perante este divórcio litigioso entre povo e país? Um divórcio agravado, pois bem vemos que o povo vive num planeta e o poder noutro.
Que faço? Que fazemos? Não quero mais sentir-me impotente. Não quero fingir que nada se passa. Não basta a revolta que nos revolve as entranhas. 
Dizei-me!
Não posso ficar de braços cruzados assistindo à morte do meu País. Salvem-no!
Como?
Alguém que me (nos) ajude, depressa. Tenho medo de desistir.
Dizei-me!

domingo, abril 15, 2012

Sílabas


Num tom que não admitia contestação, declarei do alto dos meus três anos que queria ler. Não me lembro da resposta mas deve ter soado a hesitação porque não mais larguei o assunto até forçar uma rendição total.
Comecei então a ver a mãe a recortar fotografias de revistas e a guardá-las. Intrigou-me, aquele mistério. Parecia uma brincadeira que me estava vedada, e olhava entre o curiosa e o zangada aqueles recortes coloridos. Até que um dia percebi: do desvelo de mãe saiu um dossier pequeno, com algumas folhas brancas. Nestas, cuidadosamente seleccionados estavam colados os tais recortes de revistas e, à frente de cada boneco, uma letra.
Finalmente ia ler! Sofregamente absorvi as letras e depois as sílabas, obrigando a desesperada mãe a pensar em palavras que pudesse construir com o já aprendido e voltar às revistas para encontrar os bonecos adequados. Ainda me lembro da folha que tinha um cavalo. Já na altura era uma paixão, e o conseguir ler o nome da coisa amada comoveu-me. Tinha conseguido! O dossier foi aproveitado para o irmão seguinte, mas o interesse não era o mesmo, e quando chegava ao cavalo, olhava para a mãe com ar triunfante e dizia sempre: Égua! Acho que ficou por ali.
Em casa da avó, na Rua de S. Ciro ou no Alentejo, a mãe conseguia descansar um pouco da minha impaciência e dava lugar à avó. Sentadas à camilha, eu numa cadeira com várias almofadas que me faziam ter os pés ainda mais longe do chão, começava a lição. A avó pegava num livro qualquer e com o seu vagaroso dedo indicador ia apontando as palavras que eu tinha de ler e das quais não tinha a mínima ideia o que significavam. Eram sílabas. Lindas. Uma vitória saborosa. De vez em quando, aquele carinhoso dedo enrugado tapava as minhas sílabas e eu, chorosa, chamava a mãe em meu auxílio: Ó mãe, a avó não me deixa ler!
Pouco a pouco deixaram-me à solta, e aos cinco, lia os livros da Enid Blyton, “Os Cinco”, não percebendo metade e perguntava sempre à mãe o que era “um fim emocionante”.
Em casa da mãe havia tudo. Pude ir devorando sílabas. Portuguesas primeiro, mais tarde as francesas e inglesas. Passaram também a ser minhas, estas.
Num dos escritórios no Alentejo estavam os livros mais infantis, os da Condessa de Ségur, com gravuras e ortographia da época. Minha querida Sophia, como sofri com os teus desastres!
Na sala havia uma pequena estante com livros fascinantes que me acompanharam vida fora. Na prateleira de baixo estavam os livros de estudo da minha avó e tias-avós, e os que serviram também a mãe e tios. Passei férias inteiras a aprender francês, inglês, história e geografia em livros do séc. XIX ou princípios do séc. XX, cujos exercícios passava para um caderno comprado na vila.
Já mais velha lia os da prateleira de cima, romances cor-de-rosa, como “John chauffeur russo” ou “Água pela barba”. As histórias das meninas pobres e príncipes ou vice-versa, repetidas à exaustão com diferenças que nos davam a ilusão de ser uma outra história, quando afinal era a mesma…
Ainda hoje, quando entro nessa sala, o meu olhar se vira para a estante, onde estão os livros que contêm as minhas sílabas. Ainda lá estão, elas. Bem guardadas.