Às sextas-feiras, passei a escrever aqui
O primeiro texto foi este.
Gostam? Ou desisto?
sexta-feira, janeiro 27, 2012
quinta-feira, janeiro 19, 2012
Não nos calemos
No dia em que estiver para ser aprovada a extinção dos feriados, TODOS deviam ir àquele sítio onde era suposto o povo estar e não está e que nas grandes ocasiões decide contra ele sem nunca lhe perguntar.
Temos de ir para a rua! Mostrar o que pensamos contra os vendidos! Indignarmo-nos!
domingo, janeiro 15, 2012
Do corte de feriados
Sabendo que vou ser insultada e
por quem não me conhece, no mínimo chamada de preguiçosa. Além de superficial.
E ignorante. Estou muito ralada.
Acabar com feriados não é reforma
estrutural.
Acabar com feriados é falta de
imaginação.
Acabar com feriados é foleiro.
Acabar com feriados é como acabar
com o pastel de nata.
Acabar com feriados é parolo.
Acabar com feriados é querer esquecer a
História.
Acabar com feriados é saloio.
Acabar com feriados é penalizar
quem trabalha.
Acabar com feriados é para dizer
aos donos europeus que se fez uma reforma não fazendo.
Acabar com feriados é ridículo.
Acabar com feriados é tapar o sol
com uma peneira.
Acabar com feriados é querer
aproximar Portugal do país que nos compra.
Acabar com feriados é deixar de
celebrar o que deve ser celebrado.
Acabar com feriados é tentar
apagar a memória.
Acabar com feriados é vender
património.
Acabar com feriados é querer
anular as identidades nacionais.
Afinal não será isto que se
pretende, sob a capa da competitividade?
sexta-feira, janeiro 13, 2012
Premissas equivocadas
Acreditar na bondade do Homem,
até prova em contrário.
Ainda assim, dar outra
oportunidade.
Concluir que a
primeira premissa estava errada.
Mudar a premissa.
Acreditar na maldade do Homem,
até prova em contrário.
Voltar a dar outra oportunidade.
Mudar a premissa...
sábado, janeiro 07, 2012
Não quero perder
Um sorriso teu, sonhado.
As gargalhadas da filha no espaço, no tempo e na alma.
As memórias. Os cheiros. Os sons.
Aquela luz do fim do dia que
escreve tão bem na paisagem alentejana.
A capacidade de chorar. A de me revoltar.
A de sempre me encantar.
Neste casino ganho eu.
Neste casino ganho eu.
sexta-feira, janeiro 06, 2012
De James Thurber
| http://whisperinggums.wordpress.com /2010/05/02/james-thurber-the-lady-on-the- bookcase/ |
Havia um livro dele lá em casa, acho que o "Men, Women and Dogs".
Um dos meus desenhadores humoristas preferido.
Desenhos simples com um humor muito próprio.
Para quem queira saber mais,
Alguns pequenos exemplos:
segunda-feira, janeiro 02, 2012
sábado, dezembro 31, 2011
A passagem de testemunho
2012: Então meu velho, que
mensagem quer transmitir aqui ao seu herdeiro?
2011: Olha rapaz, fui considerado
pelo meu pai, o 2010, um ano difícil, mas pelo que vejo tu vais suplantar-nos
de longe!
2012: Ora, ora… Há quem diga que
vou dar cabo da crise!
2011: Típica da juventude essa
arrogância, ou será da tua mãe canadiana?
2012: Deixemo-nos de conversa.
Afinal quer deixar a sua mensagem ou não?
2011: Vamos lá então. Gostava que
durante o teu ano fosse implantada a Monarquia.
2012: Isso já é pedir muito, não
acha?
2011: Então pelo menos que os
monárquicos se unam e consigam passar a mensagem…
2012: Já me parece mais razoável,
meu velho. Deve ser a única coisa em que concordo consigo…
2011: Espera, há mais! Ou pensas
que só há uma tarefa a cumprir num ano? Não és nenhum político…
2012: Está bem, está bem! Diga lá
de sua justiça.
2011: Tens de lutar para que a
voz do povo seja finalmente ouvida.
2012: Está maluco? Então não
existe uma coisa chamada Assembleia da República, onde estão sentados uma data
de senhoras e senhores eleitos pelo povo?
2011: Pois sim, mas em primeiro
lugar, muitos nem sequer votaram, votaram em branco ou nulo. Em segundo lugar,
há quem tenha votado, não por convicção mas por voto útil ou voto de raiva.
Assim, a dita Assembleia, não representa verdadeiramente o povo.
2012: Então mas que quer que eu
faça? Ai, ai, ai… Já me está a dar trabalho demais…
2011: Queria que tu abrisses os
olhos às gentes e mostrasses que há outros caminhos, outras formas de
representação e de participação na política. Queria que transformasses ovelhas
em homens. Já agora, gostava que conseguisses que alguns dos valores mais
importantes numa sociedade voltassem a ter dignidade, como a honra e a palavra,
por exemplo…
2012: O pai é um sonhador. Vive
noutro ano, mesmo.
2011: Afinal concordas, ou não?
Queres deixar a tua marca na História dos anos, ou não?
2012: Se isso der direito ao dinheiro
do prémio Nobel, até quero…
2011: Tudo o que te ensinei não
serviu de nada? Não viste o que se passou com as PPPs e o Parque Escolar, por
exemplo? E as Novas Oportunidades? Nem falo de mais nada… Não deixes que te
façam o que fizeram aos meus trisavós, bisavós, avós e pais. Tens de mostrar
que vais mudar tudo.
2012: Não posso prometer, mas
posso tentar. Preciso é que este povo me ajude. Adeus pai.
2011: Adeus filho. Não esmoreças
e não te esqueças do passado. Sem ele não há futuro e o teu filho não nascerá.
segunda-feira, dezembro 26, 2011
Memórias a várias mãos do Natal dos Raposo na R. de S. Ciro
(texto em contínua evolução pelas
mãos que o ditam, como exercício de memória)
Rua de S. Ciro. Casa da avó para
nós, porque não chegámos a conhecer o avô.
Jantar do dia 25, com toda a
família, o que queria dizer 6 filhos, respectivos maridos ou mulheres e 16
netos. A confusão do costume, correrias, gritos, a alegria do reencontro, mesmo
que nos encontrássemos quase todos os sábados no mesmo sítio.
Uns dias antes chegava o perú do
Alentejo, de comboio, confraternizava alegremente com as galinhas antes de ser
embebedado para o dia de Natal, em que trôpego, tentava circundar os buxos.
Vinham “milhões” de perús em
Novembro, eram engordados na R de S Ciro e vendidos para as embaixadas e
pessoas que iam comprar à porta (Zeca).
No dia 25, íamos chegando, e
corríamos directos para a salinha com porta para o jardim, onde a avó passava
os dias, sentada à camilha, a fazer paciências com cartas minúsculas e já muito
gastas.
Aos sábados entrávamos pelo
portão, depois de tocar um sino. No Natal tínhamos direito à porta principal,
ao lado, e havia uma sala que só era usada nessa altura (Catarina).
Depois do beijo respeitoso à avó
e tios, começava a confraternização, os jogos… Jogar às escondidas naquela casa levava a muitas desistências, porque havia sempre vários que nunca eram descobertos.
A avó montava um presépio grande e
já não sei em que altura chamava todos, acendia uma vela e, de joelhos,
rezávamos e cantávamos ao Menino Jesus.
Das cantigas de Natal que se cantavam, ficou-me para sempre gravada na memória a estridente entoação que o Tio Quito dava á "noiiiiite do carameeeeelo !!!!" do "Entrai pastores, entrai". Todos os anos no Natal, quando oiço esta cantiga tento imita-lo. Mas nunca me sai bem... (Joana)
Das cantigas de Natal que se cantavam, ficou-me para sempre gravada na memória a estridente entoação que o Tio Quito dava á "noiiiiite do carameeeeelo !!!!" do "Entrai pastores, entrai". Todos os anos no Natal, quando oiço esta cantiga tento imita-lo. Mas nunca me sai bem... (Joana)
Quando eram pequenos os tios apanhavam
no jardim o musgo para pôr no presépio. A avó Tim, às escondidas, punha dinheiro em notas
debaixo do musgo com um nome de um pobre da rua. Depois dizia que aquele musgo
já estava seco, as crianças tiravam-no, viam as notas com os nomes e iam dar as
notas a essas pessoas, como se fosse um presente do presépio (Tia Bió).
A Ana Rita era posta em cima de
uma mesa a imitar a Madre Rosa das Escravas (Catarina).
O jantar era numa mesa gigantesca,
e aquele perú recheado não se compara com mais nada que tenhamos comido no
resto das nossas vidas.
Nem me lembro bem dos presentes.
Havia é claro, mas a lembrança de estar juntos é que fica.
quinta-feira, dezembro 01, 2011
Primeiro de Dezembro (pela mãe - 2003)
Por Teresa Maria Martins de Carvalho
Já não se usa. A “pátria” já não enche os corações. Na organização das nações
como nações, o factor económico predomina. Nações viáveis são aquelas cujas
estruturas terão capacidade para aguentar-se em pé, contra si próprias e as
forças de destruição, que às vezes sobem à tona, e também contra aquilo ou
aqueles que de fora se servem do país como caixote de lixo.
Não se insistiu muito no caso de as autoridades francesas e espanholas terem combinado entre si enxotar o Prestige, a escorrer nafta, para as costas portuguesas. O alerta “nacional” foi rápido e evitou o pior para Portugal.
Somos Europa, etc. e tal. Só às vezes... A mesma moeda nas vénias aos grandes que violam pactos cujas leis deveriam ser iguais para todos. Só quem recebeu a Europa Unida, de braços abertos como quem recebe a paz universal, lisa e limpa, se surpreenderá com estas infidelidades nacionais, ou melhor, a arrogância dos grandes, neste caso a França e a Alemanha... Sem elas não haveria Europa? Então aguentem para nós nos aguentarmos. O peso da economia dos dois países é determinante para a saúde económica da União Europeia. É “economicamente” conveniente. Quem faz as contas é que sabe.
Esta retoma útil da bandeira nacional tanto ajuda nas dificuldades dos grandes como na escapatória dos pequenos. Aquilo a que se chama pátria, volta a ter valor, não só para vitórias futebolísticas mas para exorcizar ameaças ou então para servir de encosto a uma posição difícil dos grandes, com piscar de olhos conivente.
Com o grande Mestre que foi Henrique Ruas, há largos anos aprendi, à mesa do PPM, uma frase de Santo Agostinho que me tem acompanhado desde então, como alicerce inabalável em que assentar o meu discurso político.
Populus est coetus multitudinis rationales, rerum quas diligit concordi communione sociatus (De Civit. Dei, XIX, 24)
(Povo é a porção da multidão racional associada pela comunhão concorde nas coisas que ama)
A pátria, o povo que nela encarnou, seria assim da ordo amoris, afirmação que irá concerteza incomodar os racionalistas de serviço. Até porque a data, exaltante e comovente, do 1º de Dezembro, que gera gritos incómodos, um pouco démodés, não se coaduna com a visão económica do novo viver europeu. Até os estudiosos reclamam que, no século XVII, só quando o governo espanhol apertou a bolsa aos contribuintes portugueses, estes se lembraram de que não eram espanhóis e que bem podiam ter outro rei... A Guerra da Independência esgotou depois o país mas o povo reconheceu que aquilo de que gostava (e nisso incluía o lugar real para o Duque de Bragança) não eram só “valores espanhóis”.
As forças do lugar, como diria o meu amigo Álvaro Dentinho, são muito mais determinantes para a identidade do povo, que o habita, do que se pode imaginar. Com litoral e oeste, somos filhos do poente, fácil cais de embarque para a saída, estamos não estamos, até inventámos a saudade para podermos sair sem remorso.
Dizem as más línguas que se Filipe II tivesse feito de Lisboa a capital das Espanhas, nunca teria havido restauração de Portugal, porque a força dos lugares, assim estimados, teria dado a Espanha essa humidade da costa portuguesa que, como disse o pintor Dali, se sente na pintura de Velásquez, cuja mãe como se sabe era do Porto. Pois. A Espanha (Castela, s. f. f.) tem uma enorme força centrípeta e que, até agora, com a ajuda da Monarquia, tem mantido unidas as autonomias, mas que colide sempre com a força centrífuga, não menos importante, que é Portugal. Assim estaremos equilibrados.
Não faz sentido festejar o 1º de Dezembro? Outra invasão, insidiosa, talvez mais potente do que o exército do Duque de Alba, vem acontecendo, com o aval de todos, agora quando nem sequer já há pesetas...
Comprar produtos espanhóis, descontar em bancos espanhóis, ir ao médico ou ao dentista espanhóis... Se forem bons, tanto melhor. Ser espanhol não é por si uma ameaça apesar de andarmos com a Espanha às costas... Estamos habituados às misturas que aprendemos em África, na Ásia e no Brasil. Se, na maré enchente da União Europeia, houver sobrevivência de Portugal, suficiente para se reconhecer a si próprio, será sempre indicando essas lonjuras, pátria de pátrias...
É o poder económico que vai "comprando", no verdadeiro sentido da palavra, o solo português, como fizeram os judeus na Palestina. Os espanhóis compram terrenos no Alentejo, fábricas, lojas, bancos, consultórios. Já nem é preciso gritar para recuperar Olivença. Ela virá ter connosco através desta ocupação do território... Há portugueses, sobretudo na raia, que não se importavam de ser espanhóis. Ganhavam mais. Viviam melhor. É sempre o factor económico.
Festejar o 1º de Dezembro? Quem não se lembra do seu passado não pode viver convictamente o presente. Comer bolachas espanholas não baralha necessariamente o ser e o estar, essa distinção da língua que nos guarda de confusões, patrióticas ou outras.
in http://jacarandas.blogspot.com/2003_12_01_archive.html
Não se insistiu muito no caso de as autoridades francesas e espanholas terem combinado entre si enxotar o Prestige, a escorrer nafta, para as costas portuguesas. O alerta “nacional” foi rápido e evitou o pior para Portugal.
Somos Europa, etc. e tal. Só às vezes... A mesma moeda nas vénias aos grandes que violam pactos cujas leis deveriam ser iguais para todos. Só quem recebeu a Europa Unida, de braços abertos como quem recebe a paz universal, lisa e limpa, se surpreenderá com estas infidelidades nacionais, ou melhor, a arrogância dos grandes, neste caso a França e a Alemanha... Sem elas não haveria Europa? Então aguentem para nós nos aguentarmos. O peso da economia dos dois países é determinante para a saúde económica da União Europeia. É “economicamente” conveniente. Quem faz as contas é que sabe.
Esta retoma útil da bandeira nacional tanto ajuda nas dificuldades dos grandes como na escapatória dos pequenos. Aquilo a que se chama pátria, volta a ter valor, não só para vitórias futebolísticas mas para exorcizar ameaças ou então para servir de encosto a uma posição difícil dos grandes, com piscar de olhos conivente.
Com o grande Mestre que foi Henrique Ruas, há largos anos aprendi, à mesa do PPM, uma frase de Santo Agostinho que me tem acompanhado desde então, como alicerce inabalável em que assentar o meu discurso político.
Populus est coetus multitudinis rationales, rerum quas diligit concordi communione sociatus (De Civit. Dei, XIX, 24)
(Povo é a porção da multidão racional associada pela comunhão concorde nas coisas que ama)
A pátria, o povo que nela encarnou, seria assim da ordo amoris, afirmação que irá concerteza incomodar os racionalistas de serviço. Até porque a data, exaltante e comovente, do 1º de Dezembro, que gera gritos incómodos, um pouco démodés, não se coaduna com a visão económica do novo viver europeu. Até os estudiosos reclamam que, no século XVII, só quando o governo espanhol apertou a bolsa aos contribuintes portugueses, estes se lembraram de que não eram espanhóis e que bem podiam ter outro rei... A Guerra da Independência esgotou depois o país mas o povo reconheceu que aquilo de que gostava (e nisso incluía o lugar real para o Duque de Bragança) não eram só “valores espanhóis”.
As forças do lugar, como diria o meu amigo Álvaro Dentinho, são muito mais determinantes para a identidade do povo, que o habita, do que se pode imaginar. Com litoral e oeste, somos filhos do poente, fácil cais de embarque para a saída, estamos não estamos, até inventámos a saudade para podermos sair sem remorso.
Dizem as más línguas que se Filipe II tivesse feito de Lisboa a capital das Espanhas, nunca teria havido restauração de Portugal, porque a força dos lugares, assim estimados, teria dado a Espanha essa humidade da costa portuguesa que, como disse o pintor Dali, se sente na pintura de Velásquez, cuja mãe como se sabe era do Porto. Pois. A Espanha (Castela, s. f. f.) tem uma enorme força centrípeta e que, até agora, com a ajuda da Monarquia, tem mantido unidas as autonomias, mas que colide sempre com a força centrífuga, não menos importante, que é Portugal. Assim estaremos equilibrados.
Não faz sentido festejar o 1º de Dezembro? Outra invasão, insidiosa, talvez mais potente do que o exército do Duque de Alba, vem acontecendo, com o aval de todos, agora quando nem sequer já há pesetas...
Comprar produtos espanhóis, descontar em bancos espanhóis, ir ao médico ou ao dentista espanhóis... Se forem bons, tanto melhor. Ser espanhol não é por si uma ameaça apesar de andarmos com a Espanha às costas... Estamos habituados às misturas que aprendemos em África, na Ásia e no Brasil. Se, na maré enchente da União Europeia, houver sobrevivência de Portugal, suficiente para se reconhecer a si próprio, será sempre indicando essas lonjuras, pátria de pátrias...
É o poder económico que vai "comprando", no verdadeiro sentido da palavra, o solo português, como fizeram os judeus na Palestina. Os espanhóis compram terrenos no Alentejo, fábricas, lojas, bancos, consultórios. Já nem é preciso gritar para recuperar Olivença. Ela virá ter connosco através desta ocupação do território... Há portugueses, sobretudo na raia, que não se importavam de ser espanhóis. Ganhavam mais. Viviam melhor. É sempre o factor económico.
Festejar o 1º de Dezembro? Quem não se lembra do seu passado não pode viver convictamente o presente. Comer bolachas espanholas não baralha necessariamente o ser e o estar, essa distinção da língua que nos guarda de confusões, patrióticas ou outras.
in http://jacarandas.blogspot.com/2003_12_01_archive.html
domingo, novembro 27, 2011
De Ernst Jünger
| http://cdn.counter-currents.com/wp-content/ uploads/2010/07/ernst-junger-with-bird.jpg |
Do pouco que ainda li do Ernst Jünger retiro, por exemplo, isto:
...É um bom presságio para nós o facto de a nossa memória orientar a história segundo estas estrelas de primeira grandeza. Na verdade nesse ponto igualamos os astrónomos, sendo o seu domínio o visível; apenas uma grande luz pode cruzar os espaços infinitos, apenas uma consciência intensa atravessa os bancos de bruma do tempo.
...Mas continua a ser surpreendente como, apesar dos séculos, modelos e exemplos mantiveram o seu brilho se pensarmos na força com que o brutal e o informe ressurgem sem cessar. Neste sentido, A Odisseia é a grande epopeia da razão lúcida, a canção do espírito humano, cujo caminho através de um mundo cheio de horrores elementares e de monstros cruéis, apesar da resistência dos deuses, conduz a um fim.
in O Coração Aventuroso "Das abenteuerliche Herz. Figuren
und Capriccios."terça-feira, novembro 22, 2011
Carta à minha operadora
22
de Novembro de 2011
Exmo. Sr. ou Sra.:
O
meu nº de cliente é ---------, a morada ---------------------------------------, e os meus contactos principais são: ---------------------------.
Tinha
intenção de solicitar a rescisão do contrato que tenho com a ---, cujo prazo de
fidelização terminou em 28/10/11, uma vez que a data de “estado” indica
28/10/10, conforme prints que anexo.
Segundo
fui informada telefonicamente, afinal o período de fidelização terminaria em
Fevereiro de 2011, ao que me indicam por ter recebido um telefonema nesse mês a
informar gentilmente (uma oferta unilateral que aqui a tola achou que
era bondade vossa) que a Internet passaria de 50 para 60 Mb.
“Esqueceram-se”
de informar que a contagem do período de fidelização recomeçaria.
Ainda
há quem diga mal dos ciganos. E afinal não são só os políticos.
Faço
notar que essa tal data de Fevereiro não consta em lado nenhum a não ser no
vosso sistema interno. Viva a transparência!
Por
isso, ao invés de rescindir vou ter de ficar até Fevereiro, porque pelas minhas
contas teria de pagar 930 €, verba de que não disponho (se não for este o
valor, agradeço ser informada, como vosso último gesto galante em tentativa
desesperada de provar a honestidade que não possuem).
E
não, embora esteja a pagar o
balúrdio de 62.40 € mensais pelo pacote, não
quero renegociar, porque senão o período de fidelização iria aumentar, seja
para 12 ou para 24 meses. Aliás apenas me ofereceram a hipótese de um pacote
uns 10 euros mais barato.
O
que quero agora, é desligar-me de vocês PARA SEMPRE.
Solicito
assim que me seja enviada, no prazo de uma semana, a prova de que efectivamente acedi ao
proposto e que fui informada de que o período de fidelização recomeçaria,
bem como da data exacta em que
termina esse tal alegado prazo de fidelização.
Um
recado para a Direcção Comercial. Se não fosse esta circunstância, podia ser
que até um dia voltasse a fazer contrato convosco. Assim garantiram que nunca
mais.
Se
tivessem consciência, poderia pensar que não dormiriam bem. Já percebi que não
a têm. É pena.
Com
políticas destas há-de chegar o dia em que não há clientes.
Farei
a divulgação que entender da situação e as tolas como eu que ainda acreditam na
honestidade empresarial vão deixar de ser tolas. Pelo menos na Universidade, no
meu curso de Gestão, não se ensinava a ser desonesto.
Se
as outras operadoras fizerem o mesmo, chegará um dia que não terei nenhum
serviço. Mas ainda ninguém morreu por não ter televisão, telefone ou Internet.
De
fome sim.
Com os melhores
cumprimentos,
Leonor
PS Como proposta em
nome da transparência sugiro que a data do fim do período de fidelização passe
a estar visível no sítio pessoal da Internet.
Quando me apetecer ponho o nome real da operadora.
quarta-feira, novembro 16, 2011
Do mestre Vermeer
A maid asleep
Desta vez sem a costumeira janela nem o chão quadriculado, mas como outros do Vermeer, deixando entrever num jogo de luz e sombras o que está para lá do delicioso tema central.
A porta entreaberta é o chamariz irresistível que guia o nosso olhar curioso a espreitar.
(observações de uma leiga assumida que gosta desta criada adormecida)
Desta vez sem a costumeira janela nem o chão quadriculado, mas como outros do Vermeer, deixando entrever num jogo de luz e sombras o que está para lá do delicioso tema central.
A porta entreaberta é o chamariz irresistível que guia o nosso olhar curioso a espreitar.
(observações de uma leiga assumida que gosta desta criada adormecida)
sexta-feira, novembro 04, 2011
Da mãe
A CASA LUSITANA
Por Teresa Martins de Carvalho em 30/06/2003
«Todas as nações são mistérios» -
Fernando Pessoa
Para nós, portugueses, o ano de
1999 foi inesquecível.
Verão fora, percorreu o país uma
vaga imparável de excitação, de apreensão, de alegria incontida, de raiva
impotente, uma paixão avassaladora que remexeu toda a gente, dando-lhe uma só
voz a gritar por Timor, pela vitória, pela tragédia, pela esperança. Há muitos
anos que tal não acontecia, os portugueses todos unidos por uma causa. Nem no
25 de Abril, tenham paciência... Talvez estremeção semelhante se tenha dado com
a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ou, mais atrás, em 1890, quando do
ultimato. Há mais de cem anos...
Mesmo já sem Império (ou quase,
faltava Macau) ainda lutávamos pelo Império. E não me venham cá com histórias
de solidariedade na luta pela democracia ou revoada de ajuda humanitária,
coisas dessas. Portugal estremeceu até ao fundo do seu ser. Num assomo de
responsabilidade? Sim, profunda, bem sentida. Profundo afecto, profunda
saudade. Como se, de repente, se tivesse reencontrado consigo próprio,
renascido da «vil tristeza», da chateza dos dias, das abstenções eleitorais, de
governos cinzentos, de horizontes limitados pelo futebol e por Bruxelas.
Segundo o mais conceituado
intelectual da nossa praça, Portugal criou-se como destino, desenhando para si
desígnios de grandeza excessiva, de expansão no mundo desmesurado e esgotante,
um Quinto Império feito de ilusão. Caídos agora na realidade, teríamos de olhar
a nação, órfã do Império, de modo mais lúcido e humilde. Seremos o Senhor
Oliveira da Figueira, esse português que aparece nas aventuras do Tim Tim,
comerciante obsequioso que vende tudo pelas sete partidas do mundo, conta
histórias tristes, chora e serve vinho da terra? Felizmente para o orgulho
nacional, está sempre do lado dos bons...
Não estou de acordo com Eduardo
Lourenço na sua desmistificação do sonho português e da cura que lhe propõe.
Quem aceita ser português e ser lúcido? «Pelo sonho é que vamos» nos dizia
Sebastião da Gama. «Cada vez que um homem sonha/ o mundo pula e avança» como
cantava António Gedeão. O novo horizonte é sempre o sonho, ilhéus apertados
entre o mar e as Espanhas. Neste imenso cais de despedida que é Portugal, os
emigrantes pobres saem para a Europa, os mais inteligentes vão estudar para a América
e por lá ficam.
Em 1961, quando começou a guerra
colonial, dizia-me uma camponesa alentejana, analfabeta, bem estabelecida na
sua charneca: «E agora se nos tiram Angola para onde é que nós vamos?»
Com o arriar da bandeira
portuguesa em Macau, perdemos o resto do Oriente, esse Oriente onde a língua
portuguesa chegou a ser língua franca. Perdemos o Oriente... Nas genealogias
das famílias portuguesas do século XVI lá se menciona, insistentemente,
«falecido no Oriente...», «Desaparecido no Oriente...». Não há mais Oriente
para ir morrer.
O que nos resta? Redescobrir de
novo a hispanidade dentro da Europa para equilíbrio das nações concordes num
futuro comum? Apostar forte na lusofonia, na missão de cooperação e missão
evangelizadora? Aprofundar a ligação ibero-americana numa «globalização» que
iniciamos há séculos?
Nunca houve em Portugal tantos e
tão bons poetas como no século que acabou, como se esta florescência final de
um destino de devoradores de sonhos nos agarrasse a esta nesga de terra, irmã da
saudosa Galiza que é guardiã de Compostela, o rumo espiritual dos europeus
durante séculos. Finis terra. Um destino espiritual comum, Compostela-Fátima,
numa Europa que perde a sua alma...
Como diz o Poeta:
«Cumpriu-se o mar.
O Império se desfez.
Senhor! Falta cumprir-se
Portugal!»
Da mestre * Sophia
O Rei de Ítaca
A civilização em que estamos é
tão errada que
Nela o pensamento se desligou da
mão
Ulisses rei da Ítaca carpinteirou
seu barco
E gabava-se também de saber
conduzir
Num campo a direito o sulco do
arado
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Nome das coisas (1977)
*Não quero usar mestra, mas se me obrigarem...
*Não quero usar mestra, mas se me obrigarem...
segunda-feira, outubro 31, 2011
Reflexões à toa sobre as medidas – II - A falácia dos feriados e a nova China
| http://www.wmich.edu/registrar/ assets/images/photos/calendar2.jpg |
No governo está gente que até
parece que nunca trabalhou. Com outros. Por isso vou ter de fazer um intróito. Simplificando,
tanto na função pública como nas empresas privadas, há 3 espécies de trabalhadores:
os que trabalham muito, os que trabalham e os que se encostam.
Como tenho dito inúmeras vezes, o
problema não está nos feriados ou pontes, está em pôr a trabalhar quem não
trabalha nos outros dias.
Essa história dos 37 milhões que
custam os feriados não convence ninguém. Podiam falar dos 15 mil milhões das
PPPs, mas disso, silêncio.
Tirar feriados não vai pôr os que
se encostam a trabalhar, nem a trabalhar muito os que trabalham.
Então na função pública, a
conjugação de cortes em cerca de 40% no salário (o corte do ano passado mais os
subsídios do próximo) com a farsa da avaliação e agora a retirada de dias de
descanso, vai transformar funcionários que já eram mal pagos em completamente
desmotivados. Os que trabalham e os que trabalham muito vão trabalhar menos,
enquanto os que se encostam vão continuar encostados.
Sem dúvida um grande prémio de
produtividade e verdadeiro incentivo da meritocracia. Ganham os encostados.
Como sempre.
Não deixem que vos mintam, como aqui.
Fui verificar os feriados nos
outros países da dita União Europeia e comecei pela própria Comissão (ver aqui).
Ora bem, esta tem 18 dias feriados
em 2012, teve 17 em 2011 (parece-me
que são mais, porque falta o 1 de Janeiro…). E foram estes senhores, que fazem
parte da troika que disseram que temos feriados a mais?
Vamos então aos outros. A versão oficial
minimalista está aqui.
Digo minimalista, porque não tem todos os feriados. Andei pela Internet à
procura deles e encontrei sempre versões contraditórias. Sei por isso que esta
versão oficial não é “completa”. E também alguém que fez exactamente o que eu estava
a fazer (desisti porque senão não publicava isto a tempo) não tem tudo (ver aqui).
Outra versão oficial que parece
melhor, é aqui.
Mesmo utilizando a tal versão
oficial que reafirmo estar incompleta (vide faltar o 6 de Janeiro a Espanha e o
facto de cada Estado na Alemanha ter mais feriados além destes), podemos
verificar o seguinte:
O Estado membro que menos
feriados tem, é o Luxemburgo, com 7 (mentira, porque tem mais 2). O que tem
mais feriados é a Bélgica, com 23 (nesta versão ainda falta o 23 de Dezembro,
por isso serão 24).
Portugal tem 13 feriados que como
noutros países, algumas vezes calham em sábados ou domingos e por isso não são
gozados autonomamente, a não ser por alguns sectores.
Por esta versão “oficial”, a média
de feriados será de 12,56, o que quer dizer que até estaríamos na média…
Há 8 países com mais feriados que
Portugal, e outros 5 com exactamente o mesmo número, e outros 5, só com menos
1.
Entre eles estão países dos mais
competitivos da União. Por isso, como se vê, o problema não está nos feriados,
e querem tirar 4!!! Ou seja, vamos passar a ser os escravos da Europa.
Tomar esta decisão é fingir que
se resolve um problema não o resolvendo.
O fim desta medida e dos cortes
em salários, só pode querer dizer que querem transformar Portugal na China da
Europa.
Que coisa tão fora-de-moda… Não
esperava isto de quem veio do Canadá.
Esta estratégia da
competitividade através do baixo custo da mão-de-obra pensava eu que era coisa
do passado, tanto da ditadura como dos anos 70.
Isto é que se chama regredir e
voltar a perder no terreno da competitividade dos chamados países
desenvolvidos…
Odeio mentiras e falsidades que
não têm como fim aquilo que é prometido. Continuam a querer meter a cabeça
debaixo da terra, à custa de quem trabalha.
Pois, porque quem não trabalha,
não se rala mesmo nada.
domingo, outubro 30, 2011
sábado, outubro 29, 2011
A minha casa é esta. Neste
Alentejo especial, amancebado com Ribatejo e Beira Baixa. No entanto, nem agora
é minha nem provávelmente virá a ser.
Grande parte das memórias de infância
está aqui. Memórias solitárias e memórias partilhadas com irmãos e primos.
Estão cá as folhas dos concursos
de desenho que a avó organizava para os nossos pais, com a respectiva classificação,
que incluía menções honrosas. Às vezes o mais novo também ganhava o primeiro
prémio.
Estão cá as sebentas que a avó
comprava para cada um dos netos com esperança de que tivéssemos tanto jeito para
o desenho como nossos pais.
Ao serão, sentávamo-nos todos à volta
da camilha, os pés dependurados das cadeiras demasiado altas, e à luz do
candeeiro a petróleo cuja chama a avó ia regulando numa rodinha, sempre com
atenção para que a rede da chaminé não se queimasse, esforçávamo-nos para que
daquelas páginas de papel saísse qualquer coisa de genial. Não saía.
Pode a casa até cair de um dia
para o outro. Se cá estiver, morro na casa que quero como minha. Afogada nas
memórias e feliz.
Subscrever:
Mensagens (Atom)








