sexta-feira, setembro 02, 2011

Esboço de memórias do campo


Fazer o seu próprio pãozinho ao lado da Chica, copiando-a fielmente a amassar, esmurrar com os nós dos dedos e benzer a massa, depois esperar ansiosa que o forno a lenha o coza, detectá-lo no meio dos pães grandes na pá e orgulhosa apresentá-lo na mesa do lanche.
Fazer o seu próprio queijo fresco, à frente da Chica, apertando com vagar o leite coalhado para sair o soro, colocar o cincho, polvilhar de sal grosso e apresentá-lo à mesa do jantar.
Migar couves para as galinhas, sentada numa cadeirinha com um alguidar entre as pernas, e misturar depois com o farelo.
Regar a horta com o Adriano Lourenço, marido da Chica, dos homens mais fascinantes que conheci. Não sei se tinha a 4ª classe, mas adorava Camilo Castelo Branco e tinha lido todos os seus livros. Um poço de sabedoria sobre tudo o que tinha a ver com jardins e hortas e bichos e histórias e Camilo.
Ver a água a precipitar-se nos regos da horta. Controlar a quantidade, rápidamente tapar o caminho com a enxada e abrir a entrada de outro rego, numa sensação eufórica de poder e controlo absoluto.
Ir aos figos, com as recomendações proverbiais: têm de ter capa de pobre, pescoço de donzela e lágrima de viúva!
Ir às amoras de cestinha no braço, e comer mais do que as que se apanharam.
Ir aos medronhos mais que maduros, ao sol, em Agosto, apesar da proibição.
Apanhar marmelos para fazer marmelada e comer um, bem adstringente, pelo caminho.
Escolher arroz, descascar ervilhas, depenar galinhas, untar os queijos com azeite, envolvê-los em palha e pô-los numa talha de barro.
Ir à fonte e beber de um cocho a água gelada mesmo de Verão.
Andar a cavalo. Galopar na charneca, sózinha.
Ir de bicicleta a todo o lado. Observar as ovelhas, as marrãs, as vacas.
Construir uma jangada para a barragem, com câmaras-de-ar gigantes roubadas ao tractor ou à ceifeira, tábuas e cortiça.
Escolher uma cana-da-índia, arranjar fio, chumbada, anzol e miolo de pão e ir pescar achigãs à barragem. Pescar um achigã e o primo, com cana de pesca à séria, não pescar nada.
Montar castelos com fardos de palha um em cada ponta do gigantesco celeiro, trepar até ao cimo e depois atirar os fardos para o castelo dos outros, mesmo com o risco da brotoeja certa.
Pequena amostra do que não se esquece.

sábado, agosto 27, 2011

O jardim


Quando aqui cheguei, por aqui querendo dizer ao campo, ao Alentejo, à quinta da minha avó, já vinha com o coração apertado pelo que tenho visto passar-se há longos anos no País. Queria descansar e acalmar.
Encontrei um estado da nação similar, e o coração quase parou. Nem aqui!
O que pouco interessa, como que a servir de fachada, minimamente limpo e com ar quase ordeiro, num cenário montado para português ver.
Meio escondido, mas só meio, tudo o resto. Assustador.
Ervas daninhas tomaram conta dos canteiros, dos vasos, dos caminhos, impedindo-nos de passar. Glicínias e outras trepadeiras que dão belos cachos floridos mas cujos ramos vão insidiosamente ocupando todo o espaço, pendem do alto e já rastejam pelo chão. Buxos e plantas a secar, no limite da salvação. Algumas das árvores que plantei, especialmente as nogueiras, reduziram-se a meros paus mirrados, no meio do matagal. Salvam-se umas pinheiras e uns carvalhos.
O desânimo dura pouco. Arregaço as mangas e trabalho.
Começo pelos cortes, nas trepadeiras, nas silvas, até nas roseiras que taparam a escada para a capela. Há muito para cortar, parece que não tem fim. Corto, corto, corto.
Depois vou tratar das ervas daninhas. Não quero que fique nem uma. Hei-de arrancar todas.
A seguir, rego, à tardinha…
Assim vai este jardim. Esta nação.
A outra Nação, com as suas glicínias, ervas daninhas e plantas mortas, também precisava disto.

sexta-feira, agosto 26, 2011

A Torre Desencantada - Nos 58 anos da morte de Hipólito Raposo


    No tempo em que, por decisão de um conselho de guerra em Santa Clara, fui hóspede da República na Fortaleza de S. Julião da Barra, todos os dias eu ficava na muralha, à espera de ver luzir o farol do Bugio que fielmente anunciaria a continuação da vida humana dentro daquele galeão de pedras, encalhado no areal, com o dever, cumprido a rigor, de espantar as trevas na noite do mar.
    Começou a interessar-me a sorte obscura da gente que lá vivia e de quem ninguém se lembra ao passar, corno acontece aos fogueiros dos vapores, esquecidos por aqueles que jogam e se divertem, à custa do seu suor.
    Pedi informações e contaram-me histórias incompletas de ciúmes, complicações tenebrosas, sentimentos fatais de homens e mulheres que se enredavam constantemente em suspeitas e acusações, ao contacto forçado de uns e de outras, naquele estreito cativeiro, sem, fácil ligação com a terra firme. A inacção, o descanso e a ociosidade permitiriam, porém, que se dilatasse em largo horizonte, a miragem dos mais ardentes e condenáveis desejos.
    Quando se está preso, reduzido a disponibilidade constante, torna-se a alma mais acolhedora e sensível às pequenas realidades, como aos grandes prestígios da natureza e da vida: a formiga pode engrandecer-se até às proporções do elefante, os astros, ofuscados pelas luzes da cidade, recomeçam a brilhar, com pasmo dos olhos, os factos menos expressivos tornam-se acontecimentos de vulto, examinados ao prisma deformador das nossas aspirações, na limitação forçosa em que se nos contêm a vista, os passos e o poder de acção.
    Na lembrança desperta, dá-se duração e vida ao que é efémero, as impressões sofridas prolongam-se às vezes em tormento voluptuoso, até às zonas do patético.
    Bem dizia Crisfal na célebre carta sua, de antecipado (ou eterno) romantismo:
                                      Os presos contam os dias
                                      mil anos por cada dia...
    A clausura é assim uma condição de análise introspectiva, mas que pode divagar e ampliar-se no silêncio das paredes nuas, ou expandir-se pelo rumor férvido das águas, para cujas queixas sem termo, acabamos nós por ser surdos, felizmente.
    O tumulto em que se nos revelava a vida em liberdade, representa-se ali como ordenação, plano seguro em que já seria grato viver, para viver melhor.
    A vizinhança da Torre de S. Lourenço do Bugio, irmã da de S. Julião para cruzar os fogos de defesa da barra, nos tempos em que era possível defendê-la, estimulava o meu desejo de a escalar, de penetrar o seu segredo, conhecendo a sua gente e sentindo o drama das almas daquelas famílias, adstritas à função invariável, quase-mecânica, de fazer rodar em relâmpagos e eclipses regulares, a luz do farol.
    Senão fosse o Bugio, àquela hora cinzenta do crepúsculo, não sei que pudesse eu fazer do corpo e da alma, no ermo de silêncio e sombra que me cercava e inundava todo o es- paço. E se, por caso fortuito, o lanternim não se acendesse urna noite, teria chegado o momento da consumação dos séculos: pelo menos, a surpresa seria tanta como avistar do Equador uma aurora boreal ou ver chover coriscos do céu sereno.

Setembro de 1929
(In Hipólito RaposoPátria Morena, Porto, Livraria Civilização, 1937)

quinta-feira, agosto 11, 2011

Sem bolsos


Hoje abri a caixa de costura.
E com linha preta, dupla, enfiada em agulha grossa,
pespontei e silenciei todos os meus bolsos.
Um a um.

Porque um a um foram rasgados, pilhados e despejados,
sem contemplações nem misericórdia.
Vazios de sentido, mesmo quando o perto do nada é o quase infinito.

Sobram uns tímidos sonhos, talvez,
mas esses não vivem nem cabem nos meus bolsos.
Mergulham, ofuscando, nos meus olhos.


Leonor Raposo
10/08/11

quinta-feira, agosto 04, 2011

A cesta


Ontem olhei para dentro da cesta e vi-a quase vazia. Um livro, o que leio nos transportes e antes do almoço, um remédio e um papel.
Porque é que saio com ela porta fora todos os dias? Posso perfeitamente pôr tudo aquilo na carteira e dispensar a cesta…
No autocarro ocupa um espaço maior que o seu tamanho indicia, tenho sempre de ter cuidado para não magoar alguém, se me sento não cabe bem no chão a meus pés e acabo com ela no colo, enquanto manobro os braços para ler. As senhoras tanto lançam um olhar de desdém como de curiosidade. Os homens nem ligam.
Resumindo, um verdadeiro empecilho.
Mas um empecilho de que não me consigo livrar. O meu gesto já se tornou automático. Agarrar nas suas pegas e sentir o seu peso ao caminhar, é tão natural, que me iria sentir nua sem ela.




Se a cesta começou por ir às reuniões Europa fora, acabou por ir nas miniférias a Istambul, e acompanha-me todos os dias no trabalho.




Tem uma paciência de santa, ouve-me a berrar com o computador, a falar sozinha, e nunca interrompe.
À saída, se vamos às compras, condescende em ficar atulhada e contribuir para a preservação do planeta.
Já vai também a restaurantes, aos jantares de amigos e à saída de sexta-feira.
O conteúdo é variável e deve ser por isso que nunca se cansa. Há dias em que só carrega o livro e o remédio, noutros tem a felicidade de reencontrar as compras, noutros ainda, transporta delicadamente o portátil, e, mais vezes do que gostaria leva com menosprezo a papelada de reuniões ou trabalho.
Tal como os donos se começam a parecer com os seus cães, também eu estou a ficar irmã gémea da cesta. Rectangular e tudo. Com desenhos por fora.
Agora, meus amigos, eu e a cesta, a cesta e eu, somos tão inseparáveis como os Cinco da Enid Blyton. Talvez mais ainda, mesmo sem as aventuras.
Acho que vou propor a legalização deste casamento.

04/08/10
Leonor Raposo

A página da cesta no facebook:

domingo, julho 31, 2011

Um legado do avô



















Em presença deste sumário de inquietações, mudanças e perseguições, não posso dizer que fiz uma carreira oficial, digna de apresentar-se como exemplo a seguir por quem tenha ambições ou aspire à satisfação de as ver realizadas.
Confesso-me inocente da culpa de haver nascido com alguma tendência para endireitar o mundo, em cada caso ouvindo pessoas discretas dizerem-me que era torta a vara da minha justiça. Então olhava para ela e parecia-me direita.
Vida estéril, inútil para os outros e para mim, resta-me lamentar que estes trabalhos, penas e sacrifícios, de nada tenham servido para bem da comunidade nacional, vendo-me obrigado a reconhecer com melancolia a força de verdade do velho prolóquio: quem serve ao comum, não serve a nenhum.
Esta amarga experiência poderá talvez servir de aviso aos que não tenham força para renunciar a interesses e vaidades, mantendo apenas a honra de sermos nós mesmos na firme coerência dos passos nos trabalhos e ciladas do mundo. Para esse fim, ouso supor algum tanto proveitosa a lição que se poderá colher da biografia oficial de quem nunca se atravessou no caminho dos outros.
Quanto a mim, neste cabo da vida, sem desejar compensações nem alimentar esperanças, nem por glória ou vanglória, quereria seguir outros caminhos se houvesse de tornar a nascer.
Nesta conformidade, leitor malévolo, aconselho-te o riso e prescindo da tua piedade, ao assegurar-te de que voltaria incorrigivelmente a lutar pelas razões da verdade e da justiça, aumentando as folhas deste cadastro, ao serviço da Nação Portuguesa.

Lisboa, 18 de Agosto de 1952.
Hipólito Raposo in Folhas do meu cadastro Vol II

sábado, julho 30, 2011

Normalidade

Todos os anos,
nos mesmos momentos,
nas mesmas torturas,
choro.
Não quero, mas sim,
choro.
Não gosto, mas sim,
choro.
Razões são sempre mil.
E são sempre mais de mil as outras razões
para não chorar.
Piegas.

Cego

Viste a criança com uma estrela na mão?
Viste a estrela que apagou o sonho?
Viste o sonho acordar o homem?
Viste o homem fugir da esperança?
Não viste e ele não agarrou a estrela.

sexta-feira, julho 29, 2011

Régua e esquadro

Nos próximos arranjos administrativos troikistas temo um olhar colonial sobre o caótico mapa existente, munido simplesmente de régua e esquadro para traçar nos organogramas, ignorando as curvas das competências e da voz dos habitantes. 


Exactamente o mesmo temor, ou maior ainda, tenho para as regionalizações troikistas.

segunda-feira, julho 25, 2011

Muito melhor que um filme

Qual filme! A nossa história é muitíssimo mais apaixonante...  
Se lemos, logo ouvimos e vemos!

Sem acordos ortográficos.

1139

Final da Acta das «Cortes de Lamego», reunidas na Igreja de Santa Maria de Almacave


....
Estas são as leis de justiça, e nobreza, e leos o Cancellario del rey, Alberto a todos, e disserão, boas são, justas são, queremos que valhão por nos, e por todos nossos decendentes q despois vierem. 

E disse o procurador del Rey Lourenço Viegas, 

Quereis que el rey nosso senhor va âs Cortes del rey de Leão, ou lhe dê tributo, ou a algûa outra pessoa tirando ao senhor Papa que o côfirmou no Reyno? 

E todos se levantarão, 

E tendo as espadas nuas postas em pé disserão: 

Nos somos livres, nosso Rey he livre, nossas mãos nos libertarão, 

e o senhor que tal consentir, morra, 

e se for Rey, não reine, mas perca o senhorio 

E o senhor Rey se levantou outra vez com a Coroa na cabeça e espada nua na mão falou a todos. 

Vos sabeis muito bem quantas batalhas tenho feitas por vossa liberdade, sois disto boas testemunhas, e o hé tambê meu braço, e espada; 

se alguem tal cousa consentir, morra pello mesmo caso, e se for filho meu, ou neto, não reine; 

e disserão todos: boa palavra, morra. 

El Rey se for tal que consinta em dominio alheo, não reine; e el rey outra vez: 

assi se faça. 

Ref.s José Mattoso, A Realeza de Afonso Henriques, História Crítica, nº 13, 1986, pp. 5-14; reed. in Fragmentos de uma composição medieval, Lisboa, Editorial Estampa, 1987, pp. 213-232.

sábado, julho 23, 2011

Quero


Um povo.
Um Rei.
Uma Nação.
Livres.

Que o povo livre se una em torno dos seus anseios.
Que a sua voz livre seja A voz.
Que o local se torne central.
Que a responsabilidade não seja oca.
Que a honra não seja vã.


terça-feira, julho 19, 2011

Resumo dos resumos dos últimos capítulos

Situação premente: Juros da dívida a quase 20%. Buraco já não se sabe de quanto. Iminência de bancarrota. Euro em fim de vida. Pobreza generalizada.

Reacção imediata: Primeiro-ministro em económica. Carros do Estado já não levam meninos à escola nem senhoras às compras. Maçãs-de-adão ao léu na agricultura. Mais um presente natalício para os mesmos.

Ao lado: SLB, SCP e FCP preparam época.


domingo, julho 17, 2011

Moeda de D. João I

Do mestre José Régio

Cântico Negro"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces 
Estendendo-me os braços, e seguros 
De que seria bom que eu os ouvisse 
Quando me dizem: "vem por aqui!" 
Eu olho-os com olhos lassos, 
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) 
E cruzo os braços, 
E nunca vou por ali... 

A minha glória é esta: 
Criar desumanidade! 
Não acompanhar ninguém. 
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade 
Com que rasguei o ventre à minha mãe 

Não, não vou por aí! Só vou por onde 
Me levam meus próprios passos... 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde 
Por que me repetis: "vem por aqui!"? 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos, 
Redemoinhar aos ventos, 
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, 
A ir por aí... 

Se vim ao mundo, foi 
Só para desflorar florestas virgens, 
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! 
O mais que faço não vale nada. 

Como, pois sereis vós 
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem 
Para eu derrubar os meus obstáculos?... 
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, 
E vós amais o que é fácil! 
Eu amo o Longe e a Miragem, 
Amo os abismos, as torrentes, os desertos... 

Ide! Tendes estradas, 
Tendes jardins, tendes canteiros, 
Tendes pátria, tendes tectos, 
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... 
Eu tenho a minha Loucura ! 
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, 
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... 

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém. 
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; 
Mas eu, que nunca principio nem acabo, 
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! 
Ninguém me peça definições! 
Ninguém me diga: "vem por aqui"! 
A minha vida é um vendaval que se soltou. 
É uma onda que se alevantou. 
É um átomo a mais que se animou... 
Não sei por onde vou, 
Não sei para onde vou 
- Sei que não vou por aí! 

quinta-feira, julho 14, 2011

Que mais?

Já escrevi abertamente à Merkel, já esbocei uma missiva ao triunvirato, que faço mais? 
Só me apetece retornar à mãe-madastra e dizer-lhe que nem sou filha, nem enteada, que recuso a herança, e que vou lutar sozinha pela vida.

domingo, julho 10, 2011

Esboço de pequena missiva ao triunvirato

To: IMF, ECB, EU
Bcc: Mrs Angela Merkel

Dear Sirs,
Again I have to renounce to my mother language to address someone. I hope my technical English is a bit better than the one my former prime Minister used to address you in.
First of all, I want to inform you that I did not vote for the former Prime Minister, and in fact, neither for any of the former Prime Ministers before him. That does not mean that I vote for any radical party, I just vote according to my conscience, and the stupid electoral law does not allow any more parties to be in Parliament than the 5 ones we have for years…
Not being an expert, and not pretending to be one, I, as a concerned citizen, have some very very simple questions about the MoU that you kindly presented to our political parties.

The good news: some expenditure cuts mainly those regarding what we call the “fat” within the State are good and should have been done by our politicians years ago.

Now the questions…

Are you sure you want us to pay the debt? Really?
Because, reading the MoU sometimes I have serious doubts about it…
Let’s see. The intention is to pay or to increase the debt?
Can you point out one case where you reduced the public deficit in so little time and in such a drastic way, foreseeing also a recession for several years and a loan with such high rates that did not end up creating more debt? I’m talking about a scenario where you cannot devaluate the currency… 
So, your plan is to make us beg for another loan 2 years from now? Is that it? Moody’s guessed it… Why? If it is for us to be pushed out of the euro, better to leave it now...

Just one more smaller thing that I cannot understand and seems a bit inconsistent with the rest:

Why on earth you explicitly say to review all public private partnerships but do not refer to a cancellation of the TGV? Or even suspension? Or review? Has this anything to do with a certain promise of a certain deal with a certain company in a certain European member state? 
Can you guarantee that my grandchildren will not be still paying a train that cannot sustain itself?

Because of our corrupt politicians but also of this agreement that should have foreseen some space for growth, our country is now ready to be even more looted…
Do not doubt for one moment that we’ll keep our word. But then there will be no more Portugal left.

See you in a few months.
Hoping you remember that growth means money, yours sincerely,

Leonor

sábado, julho 02, 2011

Desnorte

Sem comando,
numa desobediência cega,
meus olhos persistem em buscar-te,
esquadrinhando metódica e milimetricamente
cada quadrícula do horizonte
dos meus caminhos estafados,
mesmo sabendo que não estás.

Como se houvera encontro marcado,
Adivinho-te a cada esquina
E sempre me engano.

Sonho os teus passos
o teu olhar e os teus gestos.
Invento e percorro os teus recantos
e ainda assim, os meus sonhos povoam-se de desencontros…

Quero ler-te e traduzir-te,
Mas procuro o teu olhar e não me reconheces.

Leonor Raposo
01/07/11

Estatísticas...

Também tenho as minhas estatísticas, http://do-futuro.blogspot.com/. E publico-as para me sentir mesmo pequenina: tenho 7 anos e 1 mês, com grandes interregnos, 450 visualizações (mas deixei de ter sitemeter uns anos), 64 mensagens e 5 seguidores que têm no máximo um mês...

Comparar Júpiter com Plutão, dá nisto!

quarta-feira, junho 29, 2011

Desarrumo

Em carrossel sem freio 
entraram as palavras. 
Aquelas que afinal calarei, 
E as outras, as de circunstância… 
Nessa velocidade insana 
saltam e brincam trocando de lugar. 
Uma roda-viva que me não dá sossego… 
Palavras em rodopio,  
volteiam ânsia, inquietude e alvoroço,  
não se deixando arrumar. 

Temo as palavras sem açaime… 
E temo mais ficar muda nesse instante 
Quando te quiser dar as palavras que calei. 

Leonor Raposo
29/06/11

sexta-feira, junho 24, 2011

Dia 5 - Diário de viagem de uma cesta e duas malucas (Modo telegráfico) Istambul em 5 sentidos e mais uns…

5º dia: 11 de Junho de 2011

Último dia disponível. Compras! Directas ao Grande Bazar (Kapalı Çarşı).


A cesta excitadíssima. Queria comprar tudo, regatear ao máximo. Confesso que não consigo. Mesmo. Pareço a minha mãe, que ao voltar de Marrocos, disse ter a sensação de os vendedores terem ficado tristes, porque não dava luta absolutamente nenhuma. Acabou por pagar imenso dinheiro quando decidia comprar.

Aqui, a minha filha pouco a pouco foi ganhando o jeito e no fim, eles sorriam enleados, achando graça a que fosse ela a regatear, olhando até com um certo respeito. A cesta, interesseira, ia picando, propondo os novos valores.

A crise imperou: coisas pequenas, e pronto. Um dos vendedores, no meio do regateio, perguntou pela nossa crise, e se era maior ou menor que a grega. Odeiam os gregos.

Enfim um cruzeiro no Bósforo! Duas horas, na empresa oficial, mais de metade do preço das turísticas.


Um dia cinzento, ameaçando chuva. Mau para fotografias. À ida olhar sobre o lado da Ásia, à volta, sobre a Europa.

Paragem em Üsküdar, na Ásia, para entrada de passageiros. Tudo enfeitado por causa das eleições. Um barco tipo ferry ia-se enchendo de pessoas com bandeiras de um dos partidos, aos gritos nas suas palavras de ordem. Depois partiu, a abarrotar, em direcção a um outro porto qualquer.

As fotografias, na página da cesta vão falar por si. Quem navegou no Bósforo percebe. 

Vimos a fortaleza da Europa (do outro lado havia a da Ásia...)


E agora, não vou fazer por menos: quero uma casa sobre o Bósforo. E não é casa com vista para, é mesmo na beira.


 Na volta, quando atracávamos outra vez na Ásia para que passageiros saíssem, um pássaro, corvo marinho de faces brancas (?), displicentemente pousou num candeeiro, quase à altura dos nossos olhos. E ali ficou, olhando-nos de soslaio, pavoneando-se, orgulhoso de se mostrar.


 Fim do cruzeiro, mas dia de compras é dia de compras. Voltámos ao Bazar das Especiarias.


O último jantar. Perto do hotel. Um prato de que não me lembro do nome. Com direito a espectáculo. Um recipiente de barro que é aquecido em lume, e cuja parte de baixo é depois cortada para se retirar o recheio.


No fim, o empregado resolveu pôr na mesa puzzles de metal, e à medida que os íamos resolvendo, trazia mais. No fim, até trouxe os que tinha acabado de comprar e ainda não tinha feito! Desconfio que não estava à espera das nossas capacidades. Não lhe contámos sobre o nosso cúmplice secreto: a cesta!

Hotel. Malas. Encafuar tudo. Amanhã deixamos Bizâncio, Constantinopla e Istambul. Gostámos e admirámos as três. 
Eu volto.

domingo, junho 19, 2011

Dia 4 - Diário de viagem de uma cesta e duas malucas (Modo telegráfico) Istambul em 5 sentidos e mais uns…

4º dia: 10 de Junho de 2011

No dia anterior, concerto de estratégias. Queríamos ir à Igreja de S. Salvador de Chora, como quase todas transformada em certa altura numa mesquita, e por isso chamada de Kairye Camii, e tinham-nos aconselhado a chamar um táxi, pedir-lhe para esperar e voltar no mesmo.
Mas as nossas brilhantes mentes engendraram outra solução, que nos pareceu mais vantajosa. Que tal apanhar um dos circuitos turísticos de “Hop on Hop off”, sair na paragem mais próxima de S. Salvador de Chora e na volta continuar o circuito? Nem mais! Acrescentámos assim ao que queríamos, uma visão mais completa da cidade.
Embarcámos já para o fim da manhã (férias!) e vimos Istambul, seus lugares e gentes, de um plano diferente. Quase de anjo.

 Uma casinha de gelados elásticos turcos (dondurma)


Dos auscultadores (que guardámos), desfilavam descrições e histórias sobre o que ia aparecendo, ou do que se adivinhava por trás do que se via. A voz (escolhemos o inglês à falta da língua pátria), era intercalada por músicas turcas, que apostámos terem sido candidatas a festivais de Eurovisão. Ao fim de duas audições musicais, o nosso gesto automático e simultâneo, sempre que apareciam, era estender o braço e baixar o som…
Temos de fazer isto em Lisboa. Para ver se são historicamente correctos, se são interessantes e se tem músicas portuguesas do festival da Eurovisão.
A passo espartilhado pelo trânsito. Até chegar ao Bósforo, revemos tudo em diferente olhar, até os pescadores da Ponte Galata.

Depois, uma nesga do Palácio Dolmabahçe, a Igreja de Santo Estevão dos Búlgaros (veio pré-montada de Viena!), o estádio do Besiktas (não estavam lá os portugueses), o arranha-céus do Hotel Sheraton, que é uma das piores coisas que já vi, nem sei como permitiram aquilo a estragar a vista, a Praça Taksim, onde estavam manifestantes anti-nuclear e onde vimos pessoas a entrar em autocarros em andamento, um mercado de flores, o Pera Palace Hotel (onde ficavam os do Expresso do Oriente)…

Muralhas de Teodósio (Teodos II Surları). Restos de palácio bizantino que devia ser grandioso.

Descemos na zona de Edirnekapı, perto das muralhas, numa quase auto-estrada. Completamente perdidas, sem saber qual a direcção certa. A certa altura uma mãe de lenço e sua filha adolescente dirigiram-se-nos em turco. Qualquer coisa por causa do multibanco. Desistiram, não conseguimos perceber, mas achámos graça pela insistência, mesmo depois de perceberem que não éramos turcas.
Lá nos orientámos. Que igreja mais maravilhosa, a de S. Salvador de Chora! Frescos e painéis de azulejos absolutamente lindos, não tem descrição. Uma pérola, num canto discreto e aprazível da enorme Istambul. Filha com dificuldade em tirar fotografias sem ser desfocadas por não poder usar flash. Ombro e cabeça da mãe a fazer de tripé.


















A caminho da paragem para apanhar o autocarro de volta e continuar o circuito, vimos o que pensamos ser os Dolmuş, uns mini autocarros, que nem paragens parecem ter: as pessoas fazem sinal em qualquer lado… e também entram quase com ele em andamento!
De volta, perto da Ponte Galata, um bando de gaivotas esvoaça cerrado, certamente pela presença de peixe.



Fim da volta pela beira do Bósforo, passando pelo mercado do peixe (tão arrumadinho!).
E agora? Bazar Egípcio ou bazar das especiarias (Mısir Çarşısı). A quantidade de gente faz impressão. O cheiro logo que se entra é óptimo! Os arranjos das especiarias. A variedade. Os lokum (chamados delícias turcas). Os chás, o café.



Ainda vamos ter tempo. Apanhar o metro para atravessar a Ponte Galata. Subir no funicular. Ver só o fim da rua das lojas (cheia!) e ir descendo até chegar à Torre Galata.


Bicha para pagar bilhete, bicha para o elevador. Uma vista! Daquelas! 360º… Toda a Istambul aos pés e o Bósforo… Terceiro (ou já é quarto?) enamoramento.


Descer a pé. Perdemo-nos outra vez e desta vez estamos mesmo longe do metro. Abrimos o mapa e imediatamente dois turcos nos tentam ajudar, sempre em turco, mas percebemos tudo. Era andar, andar, que chegávamos…
Chegámos. Mensagens no facebook para quem fazia anos. Deixo as rosas em papel oferecidas à filha em dois sítios diferentes.


Nota: Mais retratos vão ser postos no sítio do costume: https://www.facebook.com/apaginadacesta.thebasketspage